Para aprender

É preciso começar a alfabetizar aos 4 anos?

Minha filha de 4 anos que está aprendendo a ler. As primeiras letras estão sendo apresentadas para ela, de maneira formal.

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Aos 3 anos e ½ minha filha repetia as letras do seu nome quando escrevíamos em um papel. O desejo partiu dela e não poderíamos falar não. Mesmo assim não pontilhamos para ela escrever em cima. Os símbolos (letras) foram copiados por ela na sequência que ela considerou correta.

Esse registro não pode ser considerado alfabetização, já que ele não tem significado lógico para a criança. Não fizemos associação entre letras do nome com outras palavras e não estimulamos para que ela buscasse isso.

Mas aos 4 anos sua escola, que segue modelo tradicional de ensino e alfabetiza por letramento, começou a significar as letras, trabalhando exercícios lógicos e de reconhecimento entre palavras. As palavras parecem fazer mais sentido para ela.

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Quando é correto começar a alfabetizar?

Até a década de1980 a alfabetização tinha início aos 6 anos, com raras exceções. Era comum que as letras fossem apresentadas aos 5 anos, mas as construções de palavras e o sentido da escrita eram trabalhados aos 6 anos. Ao final do ano era tradição reunir as famílias para verem seus filhos lendo textos simples de agradecimento, terminando com a entrega de um diploma simbólico de alfabetização.

Nos anos 2000 o processo de alfabetização desceu 1 ano. A leitura e escrita de palavras simples passou a ser finalizado quando a criança tem 5 anos, adiantando o trabalho a ser consolidado na Classe de Alfabetização que, aliás, perdeu esse nome.

Agora vivenciamos outro adiantamento no processo de leitura e escrita. Mas será que aos 4 anos a criança está pronta para aprender a ler e escrever?

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As novas necessidades da criança e da família

Com a incorporação de tecnologias no dia-a-dia das famílias, as crianças passaram a ser apresentadas mais cedo para as palavras. Os computadores, tablets e celulares passaram a levar para as famílias o desafio de filtrar o que as crianças podem ver e interagir. Muitas vezes essa interação depende da decodificação dos códigos (palavras), e por serem essencialmente curiosas (afinal elas estão descobrindo o mundo), as crianças solicitam atenção dos pais para que a interação continue, o que leva a necessidade da aprendizagem por parte dos mais novos. Como efeito direto, os pais se sentem confortáveis quando as crianças se tornam independentes e começam, mesmo informalmente e sem conhecimento pedagógico, a significar as palavras para seus filhos. É comum explicar que a área verde escrito SIM significa que ele aceita e quer continuar, e que a área vermelha escrita NÃO significa que ele quer parar.

Naturalmente a necessidade de alfabetização que as famílias possuem encontra eco nas escolas, que passam a alfabetizar mais cedo.

Sobre esse assunto é comum que pais se questionem sobre o uso ou não da tecnologia em casa. Minha opinião é simples: não há como fugir. Privar a família dos benefícios tecnológicos não salvará as crianças da curiosidade ou sede de aprender. A solução é usar a tecnologia a favor, e não como escudo para que as crianças não tenham interação com pessoas e brinquedos tradicionais.

A realidade das escolas

Lutar contra o desenvolvimento tecnológico da sociedade para defender metodologias educacionais ultrapassadas não salvará as escolas. Para se defender dos constantes pedidos das famílias, as escolas passaram a antecipar o processo de alfabetização e, talvez, tenham cometido um erro grave.

Crianças tem capacidade de aprendizagem muito superior a adultos. Elas não possuem preconceitos, vergonhas ou certezas. Elas aceitam o erro e não veem problemas em fazer errado, pedir desculpas e fazer diferente. O principal problema para as crianças é o que elas não sabem, e não defender o que já sabem.

Por isso cada ano de vida de uma criança representa décadas de aprendizagem para um adulto com 40 anos ou mais.

Quando cito aprendizagem coloco no mesmo pacote a socialização, a capacidade de fazer amigos, o senso de direção, a sensação de tempo, o discernimento pelo que é certo e o que é errado, o pensar nas consequências antes de fazer, a maturidade emocional e o próprio controle das suas necessidades físicas e biológicas. É comum crianças esquecerem de comer quando estão entretidas, ou avisar que precisam ir ao banheiro quando não dá mais tempo de chegar até ele.

E é exatamente nesse aspecto que muitas escolas erram. Ao antecipar o processo de alfabetização, as escolas passaram a aplicar os mesmos momentos de ensino e aprendizagem que uma criança de 6 anos se submete para um criança de 4 anos. A aplicação de regras preventivas e corretivas para manter alunos concentrados em atividades que ainda não fazem sentido para eles podem levar as crianças a alfabetização e, ao mesmo tempo, ao cerceamento da liberdade de aprender pela curiosidade, ao relacionamento estreito com o professor, a aprendizagem pela descoberta.

Os professores estão amarrados a sistemas de ensino e livros que ditam o andamento da aprendizagem. Pular uma folha ou atrasar um conteúdo pode significar a perda do controle, a reclamação de uma família e sua demissão. Além disso eles não foram formados para ensinar o aluno a descobrir, e sim ensinar para o outro o que ele aprendeu.

Esse fato é reflexo de uma educação formal que não evoluiu com a sociedade. É comum minha filha trazer para casa trabalhos de pintura, recorte e colagem. Não é comum ela trazer desafios para serem descobertos pela família. É comum minha filha dizer que não pode fazer algo na escola quando, na verdade, ela não tem a liberdade de perguntar se pode ou não. É comum assistirmos apresentações dos alunos em um palco na escola e não sermos convidados a nos integrar com os outros pais de alunos.

Interessante é perceber que essa realidade não está restrita a minha família. Em mais de 20 anos de trabalho com Instituições de Ensino, não consigo erguer os dedos de uma mão com nomes de escolas que praticam hoje o que as crianças sempre desejaram: liberdade de descobrir.

Alternativas

As escolas precisam fazer sua escolha: empurrar o problema para frente ou adequar sua metodologia educacional para a realidade da sociedade de hoje, pensando em como ela estará no futuro. O desafio de planejar o futuro é incomum para as escolas, o que é uma incoerência. Todas prometem para os pais que seu filho terá a melhor educação nos próximos 14 anos (tempo de todo o ciclo do Ensino Básico), mas seus planejamentos estratégicos não passam de 5 anos, com raríssimas exceções.

Para os pais a saída é continuar sua luta por educar seus filhos mantendo seus valores familiares. A qualidade do contato com as crianças pode levar a uma aprendizagem sem igual por parte dos mais novos. Os adultos são o exemplo e suas atitudes (mesmo as menores atitudes) refletirão quem serão os jovens e adultos do futuro.

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Novos artigos

Ultimamente estou publicando artigos rápidos em outro espaço (dmc3blog.wordpress.com). Vocês podem acompanhar os novos textos por lá, mas uma vez por semana colocarei os links aqui.

Veja aqui os últimos posts:

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Boa leitura!

 

 

Evolução da espécie

Segundo minha definição, evoluir significa se tornar diferente para sobreviver a novas condições impostas. Para alguns evoluir significa estacionar, assim não são percebidos e consequentemente incomodados. Para outros significa ver o a Terra girar e se agarrar a algo que ainda os deixam seguros, como um eterno emprego público, um bem material (seja ele casa ou automóvel) ou a alguém. Porém, uma grande massa acredita que evoluir significa aprender, inovar, fazer diferente.

Talvez seja por isso que as girafas tenham pescoços tão grandes, afinal elas passaram a disputar folhas com poucos concorrentes, ou os cachorros domésticos tenham ficado tão espertos, afinal assim eles ganham mais biscoitos especiais.

Com os humanos a evolução também não para. A Box1824 lançou no final de 2010 um belo vídeo chamado We all want to be young, que conta sobre o nascimento de uma nova geração. Milhões de pessoas já viram, se identificaram ou quiseram mudar de geração. Mas isso é questão de comportamento.

Ontem eles lançaram um novo vídeo chamado All work and all play, que usa a mesma linguagem para contar como essa nova geração se relaciona com o mercado de trabalho.

Vale a pena ver os dois, na sequência. Eles são narrados em inglês mas ganharam legendas em português.

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We all want to be young (veja primeiro)

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All work and all play

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Textos que gostaria de ter escrito

O artigo sobre Responsabilidade Social Corporativa publicado pelo Knowledge Wharton, e distribuído em português pela Universia, é uma aula do que precisamos levar para a Rio+20 e demais fóruns de debates sobre meio ambiente. Na minha opinião não há respeito ao meio ambiente sem que as relações sociais sejam levadas a sério.

Escrevi aqui sobre os casos da Nike, Zara e Apple, que representam empresas que não levam a sério sua responsabilidade social corporativa.

Não deixe de ler o artigo. É longo mas vale a pena.

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